A estranha terapia que usa movimentos dos olhos para tratar traumas

Quando o príncipe Harry apareceu diante das câmeras acompanhando movimentos laterais com os olhos enquanto recordava momentos dolorosos, muita gente conheceu pela primeira vez uma abordagem terapêutica de nome pouco familiar: EMDR.

A cena parecia inusitada. Afinal, como movimentar os olhos poderia ajudar alguém a lidar com traumas, ansiedade ou lembranças que ainda provocam sofrimento?

O EMDR, sigla em inglês para Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares, é uma psicoterapia estruturada desenvolvida para ajudar o cérebro a processar experiências perturbadoras que parecem continuar emocionalmente “presas” ao passado.

Celebridades como príncipe Harry, Sandra Bullock, Miley Cyrus e Jameela Jamil já falaram publicamente sobre suas experiências com essa abordagem. Seus relatos não substituem estudos científicos nem garantem resultados semelhantes para todas as pessoas, mas ajudam a ilustrar alguns dos possíveis benefícios do EMDR.

O que é a terapia EMDR?

Durante uma sessão de EMDR, a pessoa é orientada a entrar em contato, de maneira cuidadosamente conduzida, com uma lembrança dolorosa, as emoções relacionadas a ela e as crenças negativas que surgiram a partir daquela experiência.

Enquanto isso acontece, o terapeuta utiliza algum tipo de estimulação bilateral, que pode envolver:

  • movimentos dos olhos de um lado para o outro;
  • leves toques alternados nas mãos ou nos joelhos;
  • sons apresentados alternadamente em cada ouvido.

O tratamento segue um protocolo estruturado de oito fases. Antes do reprocessamento das memórias, o profissional avalia a história da pessoa, identifica os alvos terapêuticos e desenvolve recursos de estabilização emocional.

O objetivo não é apagar a lembrança nem convencer o paciente de que aquilo não aconteceu. A proposta é diminuir a intensidade emocional associada à experiência, permitindo que ela seja recordada como algo pertencente ao passado, e não como uma ameaça que continua acontecendo no presente.

A Associação Americana de Psicologia descreve o EMDR como uma psicoterapia estruturada utilizada no tratamento do transtorno de estresse pós-traumático. A Organização Mundial da Saúde também inclui a abordagem entre as intervenções psicológicas com evidências relevantes para o tratamento do transtorno.

“Com o EMDR, a pessoa não apaga o que viveu, mas pode deixar de sentir que o passado ainda está acontecendo dentro dela”, explica a psicóloga Josie Conti, especialista em EMDR e trauma.

Príncipe Harry: EMDR para lidar com luto, trauma e ansiedade

Um dos exemplos mais conhecidos de uso do EMDR é o do príncipe Harry.

Na série documental The Me You Can’t See, produzida para a Apple TV+, ele mostrou parte de uma sessão da terapia. Durante o processo, Harry abordou sentimentos relacionados à morte de sua mãe, a princesa Diana, e à ansiedade que sentia ao retornar a Londres.

A perda aconteceu quando ele tinha apenas 12 anos e foi acompanhada por intensa exposição pública. Anos depois, determinadas situações ainda pareciam despertar reações emocionais associadas àquela fase de sua vida.

Durante a sessão exibida no documentário, o príncipe acompanhava movimentos com os olhos e utilizava estimulação bilateral enquanto entrava em contato com sensações e lembranças difíceis.

O caso de Harry ajuda a ilustrar um dos possíveis benefícios do EMDR: trabalhar lembranças que continuam acionando ansiedade, medo ou sensação de perigo, mesmo quando a pessoa sabe racionalmente que o acontecimento ficou no passado.

O que esse exemplo ensina sobre o EMDR?

O luto não é uma doença e não precisa necessariamente ser tratado com EMDR. No entanto, quando uma perda traumática permanece associada a imagens invasivas, culpa, medo intenso ou comportamentos de evitação, a abordagem pode ser considerada dentro de uma avaliação clínica.

A terapia pode ajudar a pessoa a recordar quem perdeu sem ser dominada, todas as vezes, pela mesma carga emocional do momento da perda.

Sandra Bullock: o trauma após uma invasão domiciliar

Sandra Bullock revelou ter recorrido ao EMDR depois de enfrentar uma sequência de acontecimentos altamente estressantes.

O episódio mais marcante aconteceu em 2014, quando um homem invadiu sua casa enquanto ela estava no imóvel. A atriz conseguiu se esconder e chamar a polícia, mas relatou posteriormente ter desenvolvido sintomas de estresse pós-traumático e ansiedade intensa.

Em entrevista ao programa Red Table Talk, Bullock explicou que passou a viver em estado de alerta. O impacto psicológico também teria coincidido com queda de cabelo causada por alopecia.

A atriz atribuiu ao EMDR um papel importante em seu processo de recuperação emocional.

Como o EMDR pode ajudar após situações de perigo?

Depois de uma experiência traumática, o organismo pode continuar reagindo como se o perigo ainda estivesse próximo.

A pessoa pode apresentar:

  • medo de permanecer sozinha;
  • dificuldade para dormir;
  • sustos exagerados;
  • pensamentos ou imagens invasivas;
  • necessidade constante de verificar portas e janelas;
  • sensação de que algo ruim acontecerá novamente.

Essas reações não significam fraqueza. Elas podem indicar que o sistema de proteção do corpo permaneceu excessivamente ativado.

No EMDR, o terapeuta pode trabalhar tanto a lembrança principal quanto os estímulos atuais que desencadeiam o medo. No caso de uma invasão, por exemplo, barulhos noturnos, ambientes vazios ou a sensação de vulnerabilidade dentro de casa podem se tornar alvos terapêuticos.

O tratamento procura reduzir a resposta automática de alarme sem eliminar os cuidados realistas com a segurança.

Miley Cyrus: enfrentando medo de palco e feridas emocionais

Miley Cyrus também falou publicamente sobre sua experiência com EMDR. A cantora descreveu a abordagem de forma bastante positiva e afirmou que ela teve um papel decisivo em sua vida.

Em seus relatos, Miley relacionou o tratamento a questões emocionais profundas e ao medo intenso de se apresentar. Durante uma sessão, ela teria utilizado uma visualização em que observava diferentes momentos da própria vida como cenas vistas pela janela de um trem.

A experiência ajudou a cantora a entrar em contato com sentimentos ligados à necessidade de aprovação e afeto.

EMDR serve apenas para grandes traumas?

Não necessariamente.

Embora seja especialmente reconhecido por seu uso no transtorno de estresse pós-traumático, o trabalho clínico pode envolver experiências que não parecem extraordinárias para quem observa de fora, mas que produziram consequências emocionais persistentes.

Humilhações, rejeições, críticas repetidas, bullying, conflitos familiares e situações de exposição pública podem contribuir para crenças como:

  • “Não sou bom o suficiente”;
  • “Preciso agradar a todos”;
  • “Vou falhar”;
  • “Não estou seguro”;
  • “Não tenho controle”.

Em pessoas que vivem sob constante avaliação, como artistas, atletas, palestrantes e profissionais expostos ao público, essas crenças podem intensificar o medo de errar.

O EMDR pode ajudar a identificar experiências anteriores conectadas ao medo atual e a desenvolver interpretações mais adaptativas. A lembrança permanece, mas pode deixar de determinar automaticamente a reação emocional da pessoa.

Jameela Jamil: trauma, transtornos alimentares e imagem corporal

Jameela Jamil, atriz conhecida pela série The Good Place, também associou sua recuperação emocional ao EMDR.

Ela já falou publicamente sobre anorexia, dismorfia corporal, dietas extremas e o impacto físico provocado por anos de comportamentos alimentares prejudiciais.

Em entrevista, Jamil afirmou que o EMDR foi a abordagem que melhor funcionou para ela depois de não obter o resultado esperado com outra modalidade terapêutica. Segundo seu relato pessoal, o tratamento teria sido mais rápido e financeiramente acessível em sua situação específica.

É importante não interpretar essa experiência como uma recomendação universal. Transtornos alimentares são condições complexas e podem exigir acompanhamento psicológico, médico e nutricional integrado.

Ainda assim, seu relato demonstra como experiências traumáticas, vergonha, rejeição e crenças negativas sobre o próprio corpo podem estar conectadas.

O possível papel do EMDR na imagem corporal

Em alguns casos, o sofrimento com a aparência está associado a episódios específicos, como:

  • comentários cruéis sobre o corpo;
  • constrangimento durante a infância ou adolescência;
  • bullying;
  • comparações familiares;
  • rejeições amorosas;
  • exposição pública;
  • cobranças profissionais relacionadas à aparência.

O EMDR pode ser utilizado para trabalhar essas memórias e reduzir a vergonha ou a sensação de inadequação associada a elas.

Isso não significa que a terapia seja suficiente, sozinha, para tratar todos os transtornos alimentares ou dificuldades de imagem corporal. O plano precisa ser definido individualmente por profissionais qualificados.

Quais são os principais benefícios do EMDR?

Os relatos dessas celebridades ajudam a traduzir, para situações concretas, alguns benefícios que podem ser buscados durante o tratamento.

1. Redução da intensidade emocional das lembranças

A pessoa continua sabendo o que aconteceu, mas pode recordar o episódio sem reviver a mesma intensidade de medo, vergonha, culpa ou desespero.

2. Diminuição de gatilhos

Situações, sons, lugares ou imagens relacionados ao trauma podem deixar de provocar reações tão intensas e automáticas.

3. Mudança de crenças negativas

Experiências traumáticas frequentemente produzem conclusões dolorosas sobre a própria identidade. O paciente pode deixar de pensar “eu sou impotente” e passar a reconhecer “eu sobrevivi e agora estou seguro”.

4. Menos necessidade de relatar todos os detalhes

O paciente precisa manter a lembrança em mente, mas nem sempre é necessário narrar cada detalhe em voz alta. Isso pode tornar a abordagem mais confortável para algumas pessoas, embora o contato emocional com o material ainda possa ser intenso.

5. Tratamento estruturado

O EMDR não consiste apenas em movimentar os olhos. Existe um protocolo com preparação, avaliação, reprocessamento, instalação de crenças mais adaptativas, verificação das sensações corporais e reavaliação dos resultados.

6. Reconhecimento científico no tratamento do TEPT

Diretrizes clínicas do Departamento de Assuntos de Veteranos e do Departamento de Defesa dos Estados Unidos incluem o EMDR, a terapia de exposição prolongada e a terapia de processamento cognitivo entre as psicoterapias mais recomendadas para o transtorno de estresse pós-traumático.

Quantas sessões de EMDR são necessárias?

Não existe um número universal de sessões.

A duração do tratamento pode variar conforme:

  • o tipo de experiência traumática;
  • a quantidade de acontecimentos relacionados;
  • a idade em que ocorreram;
  • a presença de outros transtornos;
  • os recursos emocionais disponíveis;
  • a segurança atual da pessoa;
  • os objetivos definidos para a terapia.

Um trauma isolado e recente pode exigir um processo diferente de uma história marcada por violência prolongada, negligência ou múltiplas perdas.

A fase de preparação também varia. Algumas pessoas conseguem iniciar o reprocessamento mais rapidamente. Outras precisam desenvolver primeiro estratégias de regulação emocional e segurança.

O EMDR funciona para todas as pessoas?

Nenhuma psicoterapia funciona igualmente para todos.

Relatos de celebridades podem despertar interesse e combater o preconceito contra o cuidado psicológico, mas não permitem prever como outra pessoa responderá ao tratamento.

O próprio método pode provocar, temporariamente:

  • emoções intensas;
  • lembranças inesperadas;
  • sonhos mais vívidos;
  • cansaço;
  • sensibilidade emocional após a sessão.

Por isso, o EMDR deve ser realizado por um profissional devidamente capacitado, capaz de avaliar se a abordagem é adequada naquele momento e de conduzir o processo com segurança.

Também é necessário distinguir a aplicação clínica completa de vídeos ou técnicas improvisadas encontradas na internet. Movimentar os olhos sozinho não equivale a realizar uma terapia estruturada.

Celebridades ajudam a divulgar, mas não provam a eficácia do EMDR

O fato de príncipe Harry, Sandra Bullock, Miley Cyrus ou Jameela Jamil terem relatado benefícios não constitui evidência científica.

Depoimentos individuais mostram experiências pessoais. A eficácia de um tratamento precisa ser analisada por meio de estudos clínicos, revisões científicas e diretrizes elaboradas por instituições especializadas.

Nesse aspecto, o EMDR não depende apenas da aprovação de pessoas famosas. A abordagem é reconhecida por organizações como a Organização Mundial da Saúde, a Associação Americana de Psicologia e diferentes diretrizes internacionais para o tratamento do transtorno de estresse pós-traumático.

As celebridades cumprem outro papel: mostram que traumas e transtornos psicológicos podem atingir qualquer pessoa, independentemente de fama, dinheiro ou sucesso profissional.

Também ajudam a lembrar que procurar ajuda não representa fracasso. Em muitos casos, é justamente o passo necessário para deixar de sobreviver ao passado e voltar a participar do presente.

Afinal, por que os movimentos dos olhos são utilizados?

Os mecanismos exatos responsáveis pelos resultados do EMDR ainda são estudados.

Uma das explicações propostas é que executar uma tarefa bilateral enquanto se mantém uma lembrança ativa exige parte da capacidade da memória de trabalho. Isso poderia tornar a imagem traumática temporariamente menos vívida e menos perturbadora, facilitando seu reprocessamento.

Outra hipótese relaciona a estimulação bilateral a mecanismos de orientação, atenção e integração de informações.

Apesar das discussões sobre como cada componente atua, o EMDR como protocolo completo possui evidências importantes para o tratamento do transtorno de estresse pós-traumático. A terapia utiliza os movimentos oculares dentro de uma intervenção muito mais ampla, e não como um truque isolado.

Quando procurar um terapeuta especializado em EMDR?

Uma avaliação pode ser considerada quando lembranças ou experiências difíceis continuam interferindo na vida por meio de:

  • crises de ansiedade;
  • pesadelos;
  • pensamentos invasivos;
  • medo constante;
  • culpa ou vergonha persistentes;
  • evitação de pessoas, lugares ou situações;
  • dificuldade para confiar;
  • reações corporais intensas;
  • sensação de estar preso ao passado.

Somente uma avaliação profissional pode determinar se o EMDR é indicado ou se outra abordagem será mais apropriada.

Conclusão

À primeira vista, acompanhar os dedos de um terapeuta com os olhos pode parecer uma maneira estranha de tratar traumas.

No entanto, o EMDR não é simplesmente uma sequência de movimentos oculares. Trata-se de uma psicoterapia estruturada que procura ajudar o cérebro a processar lembranças dolorosas e reduzir as reações emocionais que continuam ligadas a elas.

Os relatos de príncipe Harry, Sandra Bullock, Miley Cyrus e Jameela Jamil mostram diferentes contextos em que a abordagem foi utilizada: luto traumático, invasão domiciliar, medo de palco, necessidade de aprovação, transtornos alimentares e conflitos com a própria imagem.

Essas histórias não oferecem garantias. Porém, ajudam a tornar o tratamento mais conhecido e mostram que uma memória não precisa desaparecer para perder o poder de controlar o presente.